Enviado em 20/06/2010
Nacionalismo e Copa - Rogério Lustosa Victor*
A primeira Copa do Mundo de Futebol ocorreu no Uruguai em 1930. Esse início de competição internacional não foi acontecimento isolado: deu-se no entre guerras (1919-1939), momento histórico em que o esporte estava se tornando uma expressão de luta nacional. As Olimpíadas de Berlim de 1936 demonstram essa situação: nela, 3.963 atletas de 49 países lutaram, cada qual, pelo prestígio de sua nação e, portanto, por sua autoafirmação nacional. Conquistar medalhas era muito mais que ser corredor mais veloz ou saltar mais alto ou qualquer outro mérito nas 22 modalidades esportivas existentes naquelas Olimpíadas: conquistá-las era afirmar a superioridade de um povo sobre os demais e era (em alguns casos, como o alemão) resgatar a autoestima enquanto comunidade imaginada. Competir internacionalmente e torcer pelos atletas - ou para sua seleção de futebol - ajudaram no fortalecimento de pertencimento a uma comunidade nacional.

Os efeitos da Primeira Guerra Mundial muito contribuíram para que o sentimento nacional ganhasse força. Primeiro, a guerra destruiu os impérios multinacionais da Europa central e oriental, deixando vários povos órfãos de Estados. O princípio de nacionalidade vai então triunfar, marcando o advento de vários Estados-Nação. Segundo (e talvez mais importante), a Revolução Bolchevique na Rússia aterrorizou os Estados liberais e a ordem capitalista como um todo. Nesse contexto, o sentimento nacionalista acabou sendo um antídoto para o internacionalismo comunista, sendo instigado por Estados rigorosamente anticomunistas como o era o italiano de Mussolini a partir de 1922 e o Estado alemão de Hitler a partir de 1933 - para ficar apenas nos exemplos mais óbvios. E, por fim, a Grande Guerra (como era chamada a Primeira Guerra Mundial), com seus horrores, em certa medida destruiu o projeto iluminista e, diante do desespero, o nacionalismo se apresentou como utopia redentora.

Mas o que fez do futebol um fantástico meio em eficácia para inculcar sentimentos nacionalistas? Arriscaria a resposta com palavras do historiador inglês Eric Hobsbawm (diminuindo o risco que correria se a arriscasse eu mesmo), que assim respondeu a pergunta: "Foi a facilidade com que até mesmo os menores indivíduos, políticos ou público podiam se identificar com a nação, simbolizada por jovens que se destacavam no que praticamente todo homem quer, ou uma vez na vida terá querido: ser bom naquilo que faz. A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce, torna-se o próprio símbolo de sua nação".

E a nação brasileira que no entreguerras se debatia vigorosamente em busca de sua identidade, como se observa no debate intelectual que o modernismo travou na década de 1920, talvez tenha tido no futebol a sua chance única não só de se converter decididamente numa comunidade nacional, mas também de superar aquilo que Nelson Rodrigues chamou de "complexo de vira-latas", essa tendência intrínseca ao brasileiro de se considerar inferior aos seus semelhantes do continente colonizador, ou seja, da Europa (embora talvez tal complexo não deva ser levado a sério no que concerne aos portugueses, povos que efetivamente nos colonizaram).

Se podíamos vencer todos os países do mundo sendo nós mesmos (como aconteceu na Suécia em 1958), ou seja, jogando um futebol caracteristicamente brasileiro que não poucos ousaram chamar de futebol arte, e como nos identificávamos com os 11 jovens em campo usando triunfalmente a camisa amarela, então abria-se a possibilidade de sermos todos Garrinchas. Brasileiros. E dando certo. Ao menos era o que se poderia imaginar nos instantes imediatamente seguintes às conquistas na Suécia (1958), no Chile (1962) e no tricampeonato no México em 1970.

Porém, ao vermos a seleção de Dunga, triunfando ou não na África do Sul (2010), parece que voltamos sempre ao não superado "complexo de vira-latas". Supomos que para enfrentar os outros só teremos chances se negarmos nós mesmos, se jogarmos como eles jogam (como os europeus), se optarmos pelo futebol força em detrimento do futebol arte. O que está em jogo é muito mais que o campeonato de futebol, é a própria identidade brasileira. E quando a Copa do Mundo acaba o que fica é a velha indagação sugerida décadas atrás por Oswald de Andrade: "Tupi or not tupi, that is the question".

Rogério Lustosa Victor é doutorando em História na UFG

Fonte: O Popular - Opinião de 20/06/2010

 


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