| Trânsito |
Enviado em 07/06/2010 |
A nossa bela capital, transferida outrora com argumento de adequação à modernidade, vive um dilema paradoxal quase incontornável: o caos no trânsito.
É paradoxal por uma razão simples: quer símbolo de modernidade mais forte que o automóvel? Mais que isso, a competente indústria do automobilismo nos convenceu que o carro é o mais legitimo representante do “Sim, eu posso”. Quem no planeta não quer ter um carro? Agora, imaginem a logística de 7 bilhões de veículos circulando no planeta Terra. Insustentável!
Contudo, assim caminhou a humanidade até aqui, afirmando o seu poder material e não o seu ser. Deu no que deu: cidades entupidas de problemas, descompasso ambiental, aguda pobreza e o vergonhoso fosso entre uma pequena parcela de super ricos e outra parcela enorme de muitíssimos pobres. Fosso este, alarmante, mas que vem servindo de glória e modelo a ser perseguido. Que maluquice!
Os problemas de trânsito que temos na capital, e que já vêm ocorrendo em mais de uma dezena das cidades do interios, se agravará igualmente em todas que insistirem neste modelo - se não atacarmos a raiz do problema.
Na semana passada a Superintendência Municipal de Trânsito - SMT, órgão responsável pela solução técnica, imbuída dos melhores propósitos, iniciou um conjunto de medidas para – pelo menos -, conter parcialmente o caótico trânsito enfrentado diariamente pelos goianienses e visitantes.
Especialistas sugeriram medidas como: eliminação de rotatórias, proibições de conversões à esquerda, inversão de destinos nas ruas e avenidas, investimento em sistemas inteligentes de controle de fluxo, mais elevados, alargamento de vias, e tantas outras ações necessárias, mas insuficiente. É claro que tais medidas ajudarão aliviar momentaneamente até os próximos pontos de crescimento do PIB do país – a previsão para Goiás é que cresça 8,5% ao ano. E funciona assim: quem não tem uma condução quer ter, e quem já tem, quer trocar por outra melhor. Não é esta a lógica que a competição incentiva?
Lamentavelmente, estamos nos iludindo quando apontamos soluções técnicas para problemas que padecem de engenharia política e enfrentamento ético na escala local, regional e global. Ora, a opção pelo transporte individual é a raiz do problema, especialmente no Brasil, onde o ex-presidente do maior sindicato de trabalhadores da indústria automobilística da America Latina há dois mandatos consecutivos, é o presidente do Brasil. Na realidade a opção pelo modelo rodoviário e não ferroviário (incentivado pela matriz estadunidense), fizemos lá atrás, no governo JK, e que agora se agrava.
Há décadas não estamos priorizando o transporte coletivo. Ao contrário, quotidianamente, este forte setor da indústria automobilística, vem congestionando o mundo e obtendo incentivos sobre incentivos. Até quando?
O problema se agrava ainda mais, quando a gestão da mobilidade e acessibilidade, se depara com a fragilidade do “dito” poder público, mas que não faz jus aos seus deveres; apequenando-se quando aceita gerir os problemas do “trânsito caótico” em particular e não da mobilidade e acessibilidade humana, em geral.
E mais, um capítulo pouco desvendado na história das políticas públicas da capital é o do transporte coletivo. Como já asseverou o jurista, hoje ministro, Eros Roberto Grau em parecer sobre a situação do transporte coletivo em Goiânia: “inconstitucionalidade institucional”.
Enfim, as soluções apontadas e divulgadas amplamente pela mídia na semana passada para o trânsito em Goiânia são frágeis, insuficientes, pouco educativas e insustentáveis no longo prazo. Enquanto não dermos um passo corajoso e ousado, republicano, rumo ao interesse público, no que se refere à gestão, e, à economia de alta tecnologia e de baixa emissão de carbono, do ponto de vista estratégico, as medidas não alcançarão eficácia.
Ao contrário, continuaremos olhando para o retrovisor, e reproduzindo um modelo que teve inicio em meados da segunda metade do século XVIII, 1780, na antiga Grã-Bretanha, e, posteriormente ampliado em toda Europa e “resto” do mundo, batizada de Revolução Industrial. Atenção! Há meio século, este modelo vem dando fortes sinais de exaustão. Ainda não temos clareza suficiente sobre o nome do novo modelo. Alguns dizem: desenvolvimento sustentável, outros falam de ecodesenvolvimento. Mas, o nome importa pouco.
O certo é que este novo paradigma valore a qualidade do desenvolvimento, o equilíbrio planetário. E para tanto, uma nova economia fundada na baixa emissão de carbono, poderá inaugurar também um circulo virtuoso, onde a vida tenha centralidade e não só as intervenções técnicas; as avenidas mais largas para suportarem mais e mais carros que demandarão mais seguradoras de todo tipo e que não sustentam a vida. Ao contrário, desprezam a vida dos seres humanos, dos outros seres vivos e do planeta, que já sinaliza um elevado grau de febre provocada pela espécie humana.
• Dedico este artigo à Lisa, que na semana passada, no meio de um engarrafamento entre a escola e sua casa, disse: “Papai, você precisa conversar mais comigo sobre política” |
Paulo Souza escreve semanalmente para este site. |
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